Uma visita ao jardim

Minha válvula de escape aqui sempre foi o jardim, praticamente de hora em hora eu desço.

Aprecio ficar sozinha, mas aprecio também quando alguém desce pelo mesmo motivo e resolve compartilhar sua história comigo.

Ali sem meias palavras: dores de amor, problemas com o peso, com o sono, o trabalho… vidas tão plurais e fatores em comum.

Paz estranha

Faz tempo que eu não sorria à toa. Na verdade nem sei bem porque eu estou sorrindo, minha vida nunca esteve tão bagunçada… fisicamente, emocionalmente, profissionalmente e todos esses “mentes” que a vida adulta traz. (E olha que de bagunça eu entendo, os Virginianos que me perdoem)

Essa semana revi muita gente importante na minha vida, e mais uma vez senti saudade daquela moça que todo mundo sente também.

Por algum momento senti que estava voltando… e dei de cara com uma vida que não planejei e muito menos sonhei.

Respirei fundo, muitas e muitas vezes. Ainda não quis olhar no espelho… mas como uma lembrança quase biológica recordei que tudo o que eu tenho é o que estou vivendo hoje.

Sobre o passado?

As coisas boas… não tenho como reviver, só lembrar.

As ruins? Não adiantam ser remoídas, não tem como mudar o que já aconteceu; nem é solução tentar esquecer… e o que fazer com elas? Aprender. O aprendizado é tudo o que devo levar das coisas ruins, o sofrimento não precisa mais ser bagagem.

Sobre o futuro?

Preciso estar alerta e aberta para os “bons ventos” que aqui em mim farão sua curva.

Sobre hoje?

É cada vez que você inspira e expira.

Breath.

Malandragem

Eu ouvia essa música em frente à escola enquanto esperava o ônibus para ir para casa. Eu tinha 15 anos, minha melhor amiga tinha mudado de país, namorava um cara quase 10 anos mais velho (mas eu queria mesmo era namorar um cara da escola), e não me encaixava em nenhum padrâo (beleza, gosto musical, o que ser quando “crescer”, etc…).

Lembro de ficar com essa música no repeat (essa é realmente uma mania antiga) até chegar em casa. Eu tinha todas as dúvidas do mundo, nenhuma certeza e tinha medo de sonhar.

Hoje, deixando minhas músicas favoritas no aleatório, surgiu Malandragem de novo, e me transportei imediatamente para aquele ponto de ônibus e percebi que passado todos esses anos, ainda sou aquela garota… que não se encaixa, que está sem rumo e que não se permite sonhar com medo do que a realidade pode revelar.

Malandragem – Cássia Eller

Cadê tu paz?

Imagine um monte de pensamentos aleatórios que tiram sua paz. É a conversa que você não consegue ter, é a situação que não depende de você, é pensar nas contas babacas que você fez para tentar se sentir melhor por um segundo, é o desespero de sentir cada minuto do dia passando, é não conseguir pensar em coisas boas. Você já sentiu isso?

Agora pense em todos passando pela sua cabeça ao mesmo tempo. De enlouquecer né? Será que vc consegue fazer alguma coisa? Incapacitante certo?

Você não consegue ter foco, nenhum livro te prende, você tem vontade de gritar (mas ninguém vai ouvir seu pedido de ajuda), e por aí vai.

Alguém diz “controle” seus pensamentos que vai ficar tudo bem…

Eu sei que se eu conseguisse controlá-los ia ficar tudo bem… mas me conta… como eu faço isso?

Meditar? Atualmente nem com as meditações guiadas eu consigo, mas insisto. Remédios para ansiedade não fazem milagres. Eu me sinto insuportável, imagina se alguém chega perto. Eu preciso que alguém me abrace muito forte.

É a ansiedade chegando e dominando tudo. E quem consegue dominá-la?

Um recomeço, um reencontro

Acho que uma das coisas mais difíceis de lidar é quando nos perdemos de nós mesmos. No meu caso me perdi por causa de uma doença que eu já havia tido antes, mas que durou apenas alguns meses. Dessa vez, não chegou da mesma forma, e nem com a mesma intensidade.

Há pouco mais de quatro anos eu a vi entrando na minha vida novamente, mas com uma força que eu nunca havia sentido, e com sintomas que iam além daquela tristeza constante. Eu me sentia possuída por uma força que eu não tinha controle.

Era uma irritação fora do normal. Eu maltratava quem eu mais amava, e falava e fazia coisas que não faziam parte de mim. E nesses momentos eu me sentia uma mera espectadora daquela força que me dominava e ia destruindo minha vida, e eu simplesmente não conseguia controlar, é como se realmente eu tivesse alguém dentro de mim, eu olhava no espelho e não me reconhecia.

Eu pedi socorro para me livrar daquela coisa, mas ninguém entendia o que estava acontecendo, e pior eu não conseguia descrever. Até pedi para terapeutas explicarem o que acontecia com essa falta de controle sobre o que eu fazia, mas mesmo assim quem eu mais precisava, não acreditou no descontrole que eu tinha das atitudes, e que eu precisava do único remédio que realmente cura, mas me foi negado, e no seu lugar ficou o veneno da rejeição, do abandono e da solidão. Mas só compreende isso, quem passa por isso, quem nunca passou, não tem culpa por não conseguir entender.

Com o passar do tempo eu me sentia cada vez mais longe de mim, e cada vez mais sozinha nessa batalha. Eu não tinha mais a mim, ali eu havia me perdido e em questão de poucos meses eu já havia perdido meu lugar seguro no mundo.

Cada vez mais sozinha, pedindo ajuda. Mas parece que quanto mais eu pedia, menos as pessoas que me cercavam entendiam. É a sensação de estar dentro do próprio corpo, mas outra pessoa comanda-lo.

“Ela” tirou de mim minha fome de viver, minha alegria, meu porto seguro, perdi o amor. E me vi sozinha dentro do que era um sonho compartilhado de quatro paredes. Vi as paredes coloridas virarem cinza. Não conseguia mais entrar naquele quarto. Foi quase um ano dormindo no sofá. Até que depois de passar por vários terapeutas (de todas as vertentes possíveis), um me convenceu a voltar a dormir no quarto.

Naquela noite, mesmo com remédios para dormir, não preguei os olhos, passei mal a madrugada inteira, e pela manhã pedi ajuda. O físico já estava deteriorado, mas eu senti que quem me socorreu achou que era mentira, um jeito de chamar atenção. Não era.

Depois de um tempo já perdida de mim, um sonho que virou pesadelo, foi a vez “dela” destruir minha carreira.

Eu já não conseguia comer, os remédios pareciam não fazer mais efeito, e naquele momento eu não conseguia nem sair de casa. Eu já não sabia mais sorrir.

A Ju que conheciam, já não existia mais. No meu corpo já não havia mais vida, virou apenas uma máquina orgânica funcionando de forma inata.

E eu continuava sendo apenas uma espectadora, dentro de um corpo que não me pertencia mais, era só “dela”.

Anos se passaram, e foi só escuridão e dor. Realmente não tinha mais sentido continuar desse jeito. Mas pensando assim, mais distante eu ficava de voltar.

Com uma força que eu não tinha, fui tentar fazer coisas que eu gostava… mas nada tirava o domínio “dela” sobre mim.

Percebi que estava disfuncional em todos os sentidos, a ponto de não conseguir tratar de nenhum assunto. É como se eu tivesse perdido a capacidade de raciocínio. E num sábado à tarde, simplesmente acabei com a última coisa que ainda tinha da minha vida anterior. Meu carro deu de frente com uma árvore, e ali ele ficou, para não mais voltar.

E a verdade é que a vida seguiu para todo mundo, menos para mim.

Há pouco mais de dez dias atrás, eu ingressava num retiro, sem saber realmente o que me aguardava.

Na segunda roda de cura, eu fui ao chão literalmente, é como se a energia vital tivesse sido arrancada do meu corpo. Eu não tinha forças para me mexer, e a respiração foi ficando fraca… até que ele chegou, cuidou de mim, me abraçou e ficou ali, ao meu lado até que eu voltasse, não sei quanto tempo se passou.

Ele me olhou nos olhos e falou algumas palavras que viraram o meu mantra. Mas eu não conseguia nem responder, nem dizer o meu nome, simplesmente meu esforço todo estava em voltar a respirar.

Quando as forças voltaram ele estava ali, abraçado comigo, e naquele momento, nos braços dele eu chorei sem limites: alto, escorriam todas as lágrimas contidas desses anos de cárcere interno.

Ficamos abraçados até eu conseguir parar de soluçar, então ele me olhou nos olhos, e consegui ver que ele me compreendia, ele já havia passado por tudo aquilo também. E naquele instante eu senti que todos que estavam ao redor sentiam a mesma coisa, não havia julgamento, nem rejeição… só havia amor.

Era só o que eu precisava durante esse tempo todo, o melhor remédio… o amor.

Saí daquele lugar mágico, para continuar retomando o que eu mais queria: a Juju.

Durante quatro dias vaguei sozinha por uma cidade que eu não conhecia. Caminhei para me encontrar. Dancei à noite no Pelourinho, e não parei nem quando começou a chover, eu estava lavando minha alma.

E dali meu rumo foi partir para minha jornada de superar medos e crenças que não serviam mais.

Eu tinha medo de trilha, o que atrapalhou muito a minha vida, perdi oportunidades, fui mal compreendida por não falar tão abertamente sobre isso.

Mas quando eu cheguei, há seis dias atrás, eu estava determinada a mudar essa história. Era por mim.

Nesses últimos cinco dias (usei o primeiro só para descansar e andar sem rumo conhecendo outra cidade), foram mais de 50 km de trilhas, contemplando a paisagem, tomando banhos de cachoeira, nadar nos rios e lagoas, e não “panicar” com sapos, cobras e vários insetos (entre eles escaravelhos enormes, e ali lembrei que em algumas culturas ele representa renascimento).

Então percebi que minhas trilhas não foram apenas para superar meus medos, mas para parar e ver os sinais da natureza, ela dá respostas, te equilibra.

As próximas “trilhas” serão dentro de mim, e é aqui que essa Ju se encontra com a Juju (Jujuca, Jubis, Julihelena, Juliete, “pequena”, ou só Ju), que estava tão escondida.

Nada

Sua vida é sem surpresas, todo dia é igual, e as cores estão nas paredes, mas não fazem mais parte dela.

Ela pensa se nessa vida um dia alguém vai olhá-la nos olhos, e sentir vontade de pegar as duas mãos e tocar o seu rosto para trazer mais para perto seus olhos que mudam de cor conforme o dia. Se um dia alguém terá vontade de abraça-la e não soltar mais. Se a vontade de ter perto ultrapassar as horas e sugerir um fim de semana em qualquer lugar, só para que consigam ficar juntos todos os minutos possíveis. Não importa o lugar, desde que ele vire e fale Vamos? E ela só responde com um Bora! É o poder de adormecer e acordar, e sorrir só de sentir o calor do corpo do outro.

Será que algum dia ela terá alguém que queira cuidar dela? Será que algum dia seu corpo será desejado de novo? Será que um dia alguém irá acordar mais cedo e ficar observando ela dormir?

Ela quer muito…. mas já não tem mais forças para achar que viverá isso de novo.

Ela hoje só espera, espera que não precise pensar mais em nada, ela só quer… ela não quer nada porque… não há mais nada para acontecer. Só que não dure mais do que ela possa aguentar. Mas ela já passou desse limite há tanto tempo, que ela espera que as coisas… virem logo nada.

Hoje eu entendo

Hoje eu entendo o tamanho do amor que eu sentia e sinto por você.

Hoje sou tia de um pequeno que me ama, que sente saudade, que quando me vê me abraça com todas as forças (e conforme vai ficando mais velho é bem mais apertado), me olha nos olhos e fala que eu preciso de uma chuva de beijos, que senta no sofá coloca uma almofada no colo e me chama para fazer cafuné. Ele quer estar ao meu lado, quer cuidar de mim, quer me abraçar, quer me encher de beijos e faz planos de me levar para viajar.

Eu te admirava de uma maneira que não cabia em mim. Quando você ficou doente eu queria ir te ver todo dia, queria cuidar de você… e já não importava mais que você não pudesse me levar para dar voltas de moto, ou ir na caçamba da sua saveiro vermelha… eu só queria estar ali do seu lado.

Naquele dia que o telefone tocou eu sabia o que você tinha feito, infelizmente eu até compreendo, mas só queria dizer que apesar da sua dor eu sempre estaria do seu lado. Eu confesso, mesmo entendo, eu sinto que você me abandonou,

Lembro do seu quarto direitinho. A escrivaninha, os dois capacetes na prateleira, a vitrola enorme, sempre com os vinis do Queen na frente.

Quase 27 anos depois que você resolveu ir, sinto saudade, e por algum resquício infantil acho que você poderia me proteger de toda dor que eu passei e passo.

Hoje sendo tia e tendo um sobrinho que me ama sem medidas, entendo esse amor que sinto por você e não se acaba. Ouço Queen e lembro de você sempre.

Ouvir “Love of my Life”, me traz um monte emoções, incluindo abandono… e sim tio não é exclusivo seu, outra pessoa me abandonou também. Não é uma música exclusiva sua.

O que é amor de vida real?

Outro dia numa conversa perguntaram para ela o que era amor. Sua resposta veio na ponta da língua: quem ama quer cuidar, quer estar perto, quer olhar nos olhos, quer abraçar. E a resposta que ela ouvi era que isso era amor de conto de fadas… mas aquilo que ela descreveu parecer tão básico, que ela se questionou o que era amor de vida real e o que era amor de conto de fadas.

Ela chegou à conclusão que o que ela via como amor era o simples, mas também percebeu que pela sua experiência de vida, talvez fosse uma daquelas pessoas que não nasceram para vivê-lo. Pode ser suas marcas, seu céu de estrelas particular que carrega na pele, seus olhos que mudam de cor dependendo do dia, sua vontade intensa de voltar a acordar sorrindo.

Por favor me respondam se querer cuidar, querer estar perto, querer olhar nos olhos e querer abraçar é amor de conto de fadas, o que resta para ser um amor de vida real?

Passaporte carimbado. Destino: um pesadelo.

Ela nem tinha entrado na adolescência quando conheceu alguém que a fez acreditar que ela não era o patinho feio que sempre se sentiu. Ele escreveu uma poesia para ela, e ela guardou aquele pedaço de papel durante anos, desejando que um dia ele a olhasse de novo daquele jeito… em três anos tudo aconteceu, inclusive ele quase morreu… e ela lamentou por seu desejo de estar perto e cuidar dele ser algo impensável. Até que numa noite, quando ela descobria um novo mundo… ele literalmente tocou a campainha da sua casa, ele atravessou a cidade para isso. Mas diferente do que ela esperava, o seu coração não bateu mais forte, não haviam borboletas no estômago, e sim, ela não sentiu nem atração física. Aquele era um momento decisivo, afinal o seu desejo foi atendido pelo Universo, como sua autoestima não era grande coisa, aceitou o que a vida oferecia, doía muito ser sozinha, e ali estava uma oportunidade. Ela só tinha 15 anos, e não soube reconhecer que o melhor era esperar até um dia seu coração realmente mudar de ritmo por alguém. Foram anos de namoro, (hoje mais velha percebo que era muito pouco, uma rotina morna de poucos planos). Um dia ela recebeu um “não pedido de casamento”, da forma mais fria que isso pode ser, ela foi comunicada que se casariam. Ele comprou um apartamento, ele escolheu, e ela só aceitou. Aquilo nunca foi um lar, e de alguma forma ele sempre a lembrava que aquela casa era dele, ela se sentiu como se estivesse morando de favor. A decoração foi feita por arquitetos, um belo projeto para ser mostrado, mas não havia nada ali que revelasse algo dela. Um ano se passou, e não houve um minuto de alegria desde o Sim.

Depois dela o aceitar como “marido”, abriu-se um portal de solidão e violência, ela adoeceu… e viu que o desejo atendido não era a realização de um sonho, mas o passaporte carimbado para um pesadelo. Aquilo durou um ano e pouco, até ela descobrir que tudo o que passou com ele nunca foi real, apenas um golpe de mestre, friamente planejado por anos. E dessa vez quem quase morreu foi ela, até que um dia o “visto” do pesadelo expirou, e dali ela partiu para não voltar.

Depois de alguns meses longe daquilo, ela acreditou que o sofrimento que passou era tanto, que ela estava com créditos no Universo, para um dia descobrir um amor verdadeiro.

Foi essa crença que a fez seguir em frente, mas depois de um tempo ela descobriu que o Universo não tem moeda de troca, sofrer muito, não significa que lá na frente ele se encarregará de mostrar o caminho da felicidade.